Foge. Sobretudo de mim. Desaparece na bruma, desfaz-te nela se assim o entenderes mas foge-me. Parte no vagão que te apetecer, apanha apenas o comboio e foge-me. Deixa-me culpar-te e sentir-me bem com isso. Deixa que te evoque com nostalgia, mas com a firme certeza de que eras o culpado. Farias isso por mim? Oh!, por mim, se houvesse ainda motivo para que fizesses o que quer que fosse por mim. Noutros tempos, mundos atrás, quando não havia razão para o sacrifício, fá-lo-ias, não duvido. Mas no imediato nada te posso pedir. Resta culpar-me por não agir. Sobra-me viver no vértice escuro de duas paredes intransponíveis: uma de medo e outra de remorso, ambas estremadas por arestas de esperança. Ficam na memória recordações pouco nítidas de um rosto bem marcado e de uns braços maiores que a minha cintura. Ficam outras coisas que esforço por não lembrar e temo esquecer. Fica apenas a dúvida diluída no lento passar dos anos. Fica a incerteza e com a incerteza a esperança. E quando já mal me puder vergar para apanhar uma moeda, irei sorrir. Será das poucas coisas que me fará sorrir: ter a dúbia incerteza e a leve esperança de que aquela simples moeda já passou pelas tuas mãos. Tal qual eu.
