Logo que tomou consciência da razão decidiu o que queria. Discriminação positiva e o seu nome marcado no tempo, e pelos tempos, era o que desejava. Era um desses intelectuais estúpidos mas ambiciosos, com um pinguinho mínimo de juízo. Vivia incompreendido, mas satisfeito, em busca da melhor maneira de deixar o seu nome gravado na história das artes. Passava os seus dias a projectar futuros admiráveis. Produziu na sua mente mais que milhares, mas sempre lhe faltavam as faculdades para os levar a cabo. Um dia, num desses dias em que o sol brilhava esplendorosamente, descobriu, por cima de um leque, o olhar afectuoso e sedutor daquela que considerou, logo ali, a mulher da sua vida. E assim, imediatamente a inspiração lhe surgiu. Escreveria o livro perfeito, delicado como um rosa e de cheiro a flor de jasmim, onde se poderiam ler os mais ardentes versos de amor. Poderia levar uma vida a escrevê-lo, pouco lhe importaria, seria perfeito. E, mais a mais, o que era uma vida nos braços daquela esplêndida mulher? E assim, depois de um cortejo fácil, deram o nó, entre outras coisas. A mulher, de um fogo inabalável, mantivera-o entretido nos primeiros dias, por entre lençóis de delicado linho e doces suspiros abafados. Mas depressa aquela fogosidade lhe deu a inspiração necessária para os primeiros versos. Sentara-se na escrivaninha, a escrever sob o papel e rasga-lo de seguida com um grave trejeito. Passou dias nisto. Já não escutava os anseios da mulher que suspirava pelos cantos, vendo o lume que lhe ardia no peito apagado pela falta de atenção do outrora dedicado marido. Passaram-se meses nisto. E por fim passaram anos. A mulher bordava dias a fio e já nem se dava ao trabalho de suspirar porque o esposo parecia ter ouvidos moucos. Todos os dias, à mesma hora, a mulher saia para satisfazer os anseios e soltar os seus vagidos nos braços de um outro homem. Todo o lugar parecia saber e, os já não muito recentes amantes, não se importavam com os espectadores que de quando a quando surgiam para os ver balouçar atrás das árvores. Apenas o marido permanecia alheio a tudo isto. Oh!, como era doce a sua alheação! Escrevia os mais lindos versos de amor à sua Dulcineia que, sem ele saber, se perdia nos braços de outro. Tudo o que ele sabia era que trabalhava na obra mais perfeita de todos os tempos. Pobre, não tinha noção que a perfeição da sua obra era apunhalada pelas abrasadas e impetuosas infidelidades da sua mulher. E a mulher, nem no leito de morte, se lhe compadeceu. Quis saber então o que é que aquele traste fez durante os anos em que não lhe tocou nem com aponta daqueles rudes dedos. Viu duas páginas em cima da escrivaninha. Leu-as com desdém, a traidora, sem sentir sequer um leve peso na consciência. Pousou de novo as páginas em cima da escrivaninha e voltou para o leito do seu esposo para o ver morrer aos poucos e poucos a sorrir para aquela mulher que amou a vida toda. E assim, com duas páginas imperfeitas em cima da secretária, levou Deus aquela pobre criatura que nem conseguira sequer deixar o seu nome marcado nos seios da sua mulher, quanto mais na história das artes...