Espontaneamente destoante. As cores secas e quentes contrastam a humidade do ar e os pés molhados pela chuva de final de tarde. Eu que gosto do que não é linear, vivo em plena sintonia com os dias de Outono, sem saudade das longas tardes estivais, onde tudo era tão previsível. Não tenho pena que os raios de sol já não aqueçam, a luminosidade é suficiente para me satisfazer. De nada da natureza outonal me queixo. Lamento apenas os quadros. Não quero artistas desses que pintam preconceitos, e há tantos desses que cansa ver a mesma ideia repetida com assinaturas diferentes. Tem que haver sempre um banco de jardim vazio, quase sempre uma paisagem deserta e quando há pessoas nela, não há vida. E essas pessoas, que de vez em quando há, têm vontade de fugir daquele deserto, têm vontade de ficar em casa e esperar que a quietude dos dias frios termine. Nunca há olhares quentes ou conversas verdadeiras. Há sempre demasiado cinismo nos gestos e na indumentária. Nunca há uma alma cheia. Nunca há nada que me faça querer imaginar uma vida fora daquela tela para aquelas figuras. Repetição é o que há. E deixa de haver beleza no que é repetido. Um dia quero que pintem um quadro de Outono comigo, e com a minha alma cheia, só para ver se o que não é repetido é belo.