
“A woman who pretends to laugh at love is like a child who sings at night when he is afraid”

“A woman who pretends to laugh at love is like a child who sings at night when he is afraid”
Já atingi o ponto em que todo e qualquer acto que demonstre sanidade mental se assemelha a uma aberração.
❝A leitura dos dias faz-se a partir de vitrais de água
e sombra de palavras
paisagens cidades descobertas algures sob os dedos
estranguladas na incerteza mineral da noite
onde o cansaço me devora impedindo-me de prosseguir
e ao aproximar-me do centro vertiginoso da página
o movimento da mão torna-se lento e a caligrafia meticulosa
a sede devassa a escassez dos corpos
o monólogo embate
despenha-se pelas brancas margens da desolação
o enigma de escrever para me manter vivo
a memória desaguando a pouco e pouco no esquecimento perfeito
para que nada sobreviva fora deste corpo viandante
vou assinalar os percursos da ausência e as visões
doutros lugares de sossegados amarantos... alimentar a escrita
com o sangue de cidades e de facas engorduradas
onde os corpos adquirem a violência noctívaga da fala
desfazendo-se depois da carícia viscosa dos néons
mas existe sempre um qualquer lume eterno
um coração feliz à esquina dos sonhos
surge agora o deserto que toda a noite procurei
está em cima desta mesa de trabalho no meio das palavras
donde nascem indecifráveis sinais... irrompe
o movimento doutro corpo colado ao aparo da caneta
desprende-se da folha de papel agride-me e foge
deixando-me as mãos tolhidas num fio de tinta❞
Olho os cantos do meu quarto sob a ténue luz que chega através da porta entreaberta. Uno então os vértices através de linhas imaginárias, movendo os olhos para as formar. Procuro aí o ponto de intersecção das duas rectas e pouco depois me canso do que vejo. Analiso o espaço sobre outro ponto de vista e formo agora linhas misteriosas que se unem e dão origem a formas irregulares. Assim me divirto. Um estranho divertimento, sou obrigada a admitir. Mas gosto realmente deste divertimento solitário. A solidão e quietude agradam-me. Enquanto isso me chateia a monotonia de uma companhia pouco interessante. Assim me agrada ver como tão facilmente me envolvo em estranhos deleites com a minha própria companhia. Pecado meu, quiçá. E hoje pecarei ao percorrer recantos escondidos dos mais estranhos lugares, à velocidade da minha solidão. E só Deus sabe como gosto disso.